quarta-feira, 30 de março de 2011

A crise da fêmea - Cantares de Salomão




Às éguas dos carros de Faraó te comparo, ó meu amor.
Formosas são as tuas faces entre os teus enfeites, 
o teu pescoço com os colares.
Enfeites de ouro te faremos, com incrustações de prata.
(Ct 1; 9-11; Fiel)


Quais significados estão contidos na metáfora desses versos? Poder, beleza, imponência, força! O amado finalmente manifesta-se no livro e nos revela sua admiração, sua estupefação diante da noiva! Oferece a ela versos e presentes. Poesia e jóias. Há muitas maneiras de se agradar, de se valorizar e de expressarmos os nossos sentimentos e desejos por uma mulher. E ela, a noiva, sabe incitar o seu homem à criatividade. 

Esta comparação – "às éguas dos carros de Faraó" – era um elogio comum dos noivos às noivas naquela época.  Evidentemente, erótico. Todavia, não vulgar. Quais características femininas são referidas pelas analogias de nossa subcultura? Na era das mulheres-fruta, reduzidas à coisificação estritamente pornográfica, retornamos ao noivo de Cantares, que expressa a grandeza, a fortaleza física e a integridade moral e espiritual da majestosa noiva: a excelência feminina em sua totalidade, alma e corpo.

O que se têm dito das mulheres de nossa geração? O que aprendemos dentro de nossas casas, nas escolas, no trabalho sobre o que dizer da mulher? Mas o mais surpreendente é que há essaszinhas, as chulas, que se submetem ao menosprezo, ao ridículo, às humilhações masculinas (e, pelo que demonstram, parecem mesmo gostar). Nada contra mulher que gosta de apanhar, ser humilhada, rebaixada, cuspida... Parece que, realmente, elas existem e não são apenas criações fantasiosas do mundo pornográfico (machista). Bem, elas são livres para se tornarem escravas daquilo que bem quiserem.  Nada tenho com isso, de fato.

O problema é que a mulher-coisa é uma imagem fixada e estendida para todas representantes do sexo feminino, indiscriminadamente. Esta é a imagem repassada aos meninos, desde cedo. Há quem diga, ainda, que é só atuação, só imagem, ou fantasia... O fato é que há mulheres que se vendem (ou se dão de graça mesmo), prostitutas de plantão à disposição da humilhação. Paradoxalmente, os jovens são introduzidos ao universo feminino por elas, seja num prostíbulo (ao qual muitos pais levam seus filhos, embora, agora, já haja serviços mais cleans em motéis ou dentro de casa mesmo), seja também por filmes, revistas e o que a mídia nos oferece. Portanto, é uma cultura que molda, apresenta e define para nós, homens, o que são as mulheres, a que elas se submetem, do que elas gostam e o que podemos e devemos exigir delas. O que esperar do imaginário masculino se, desde a tenra juventude, é a isso tudo que somos doutrinados?

A crise é feminina, não é masculina. Nunca foi. A imagem primordial da mulher é a imagem da mãe – mentora que deveria, primeiramente, nos introduzir ao universo feminino. Todavia, as mães saíram de casa. A ausência dessa referência para os filhos é um abismo, um buraco aberto na formação do caráter do homem. Seremos, então, muito cedo, apresentados a outras mulheres. Perdendo, portanto, a fase do convívio e da admiração proporcionada pelo caráter bondoso, meigo, feminino da própria mãe. 

A crise, sinto muito dizer, nunca foi do macho. A crise é das mulheres que se despiram da maternidade e da responsabilidade de criarem homens de caráter,  filhos homens que respeitassem o sexo oposto, admirassem o universo feminino e que possuíssem o zelo devido às mulheres que lhe serão confiadas amanhã.

Creio que nunca a nossa cultura ocidental foi tão impregnada  por imagens de domínio sexual e abuso machista como o é agora e na qual a mulher se submete e se definha na sua sexualidade, beleza e natureza. É impossível não imaginar que houve uma armadilha cultural - uma arquitetura epistemológica - preparada pelos homens para que elas caíssem e, julgando-se livres, elas fossem, na verdade, tão oprimidas e dominadas como estão agora. Uma espécie de plano macabro planetário, que as subjugou, dando a elas a liberdade de se tornarem uma coisa, um objeto, uma fruta, um fetiche, um pedaço de carne, enfim, mas por livre e espontânea vontade delas.

7 comentários:

Max Gama disse...

Sou leitor inveterado de blogs e no dia 28 recebi um e-mail do Casal 20 (http://casal20ribas.blogspot.com/)referente ao mais recente post . Reflete de tal maneira o que penso e gostei tanto de ler, que pedi permissão para postá-lo aqui, o que prontamente me foi concedido. Sendo assim, o faço na íntegra (Ctrl+C e Ctrl+V). Espero que gostem e passem não só a seguir, mas também, orar pelos amados. É um prazer imenso postar algo tão verdadeiro e incomodo ao mesmo tempo. Boa leitura!

Anita Crix disse...

Nossa, Max!!!
Como vc é machista!! poderia passar a tarde inteeeeira aqui debatendo cada ponto de tudo o que vc disse, e que sou conrária, mas... Nao acho que mudaria sua opinião..

Max Gama disse...

Aninha, me desculpe, mas me chamar de machista por simples preguiça de compreender a proposta do post é demais. É coisa de feminista que vê tudo como ataque. Pra sua informação repito, não sou, nem nunca fui machista, só alguém que não me conheçe afirmaria tal sandice. Saio em defesa do blog que gentilmente me permitl, postar seu escrito, o Casal 20, que por sua vez, fez um alerta a um fato inegável, a "coisificação" da mulher. Recomendo que leia mais atenciosamente, lamentávelmente o que não fez!

Casal 20 disse...

Olá, Max.

Obrigado pelo privilégio de ter postado o nosso texto em seu blog. Vejo que, como foi um texto destacado de um contexto, já gerou confusões, não é?

Bem, vamos por partes.

Como o título mostraria (VI), já é a 6ª parte de uma exposição do livro de Cantares da Bíblia. Valeria, portanto, que se desse uma lida em tudo o que foi escrito antes.

Ainda assim, o texto, obviamente, é exatamente um ataque ao machismo que fez da mulher uma coisa. Assim, supreendeu-nos a idéia de que um texto que valoriza o corpo e a alma da mulher, pode ser julgado como machista. O texto é uma denúnicia contra o machismo, mas, também, uma denúncia contra aquela parcela de mulheres que se permitem ser usadas pelos homens (a mulher melancia e a morango, só para citar dois exemplos, todavia, estava pensando mesmo em todas as mulheres que submetem às baixesas do mundo pornô).

Assim, a proposta do livro de Cantares para os homens e para as mulheres é outra daquilo que tem sido a proposta da cultura funk, das revistas masculinas e do mundo pornô.

Gostaria, também, de ressaltar que acredito na maternidade. Uma mulher, que é mãe de um menino, tem uma maravilhosa oportunidade para criar um homem que venha a tratar com dignidade as mulheres de sua vida. Este é o ponto final do nosso texto. Para quem não nos conhece, digo "nosso texto", pois nosso blog é um blog assinado por mim e minha esposa.

Espero ter esclarecido quaisquer dúvidas.

Abraços sempre afetuosos ao meu amigo Max e aos seus queridos leitores.

Max Gama disse...

Casal 20, fico muito agradecido por investir tempo com essas linhas de extrema valia. Muito obrigado. Mas, creio que mesmo fora do contexto das outras 5, uma leitura cuidadosa e desprovida de partidarismo anularia a possibilidades de má interpretação.
Grande abraço!

Anita Crix disse...

Max,
não quis te ofender de forma alguma. O texto tem, na minha opiniao, alguns pontos que julgo machista sim. E tem pontos que concordo plenamente (como as mulheres-frutas).
E em cada ponto que concordo e que discordo, eu poderia discorrer hooooras sobre. Mas, infelizmente não tenho esse tempo.

Então, peço desculpas pela ofença, pois não foi proposital. Apenas estranhei ler algo que, NA MINHA OPINIAO, em alguns momentos tinham tons machistas.

Me desculpe de novo.

Casal 20 disse...

Claro, Max. Concordamos contigo, só ressaltamos que era uma sexta parte, para diminuir quaisquer outras dúvidas mais.

Querido, mais uma vez, parabéns pelo blog e estamos juntos.

Abraços sempre afetuosos.